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07/05/10

Paladares Algarvios: tradição e modernidade

A viagem que fiz a terras algarvias, a convite da ASA, foi também uma excelente oportunidade  para descobrir a gastronomia daquela região. Até então, as minhas experiências gastronómicas no Algarve não eram dignas de registo, com honrosas excepções (o restaurante Ideal em Cabanas, o 4 Águas em Tavira). No entanto, orientada por conhecedoras (a Margarida e a Ana), deliciei-me com refeições espantosas, elaboradas com produtos fresquíssimos da região, confeccionadas com a mestria de quem ama aquilo que faz... Descobri um Algarve gastronómico, onde a modernidade e tradição se conjugam na perfeição, para gáudio do nosso palato. Não me esquecerei da comida e, sobretudo, da simpatia com que fomos tratadas.


No restaurante Salinas do Hotel Vila Galé Albacora, degustámos um menu assinado pelo Chef João Santos, especialmente para o Festival de Gastronomia do Mar. O Polvo suado em chá de flor de laranjeira, com crepes de estupeta de atum inaugurou o repasto com originalidade, seguiu-se o Duo de porco preto e barriga de atum com arroz de polvo, um prato principal absolutamente surpreendente, já as Azevias (empanadilhas, como as denominam no Algarve) de batata-doce com gemada de café encerraram brilhantemente este verdadeiro festim. Não sou especialista na matéria, mas deixo aqui uma nota para dois vinhos da região que muito apreciei: o rosé Quinta do Barranco Longo e o tinto Fuzeta.

(conquilhas: foto Mónica Pinto do Pratos & Travessas)

Em Cacela Velha, jantámos n’ O Costa uma refeição bem tradicional. A vista sobre a ria é esplendorosa, mas como a noite estava fria, acabamos por nos instalar no interior. Ainda me vem à memória o aroma a mar das ostras frescas e das conquilhas, que abriram as hostilidades. Depois, experimentámos as especialidades da casa: arroz de lingueirão e cataplana. Para finalizar, deleitei-me com um dos meus doces algarvios preferidos, o D. Rodrigo, e ainda arranjei um espacinho para provar a magnífica tarte de alfarroba escolhida pela Laranjinha.


A Ver Tavira foi o restaurante eleito para recuperarmos forças, depois de um safari pela serra. Com uma vista belíssima sobre a cidade, é um espaço acolhedor, decorado com bom gosto, onde se come muito bem e os produtos regionais brilham numa ementa original e moderna.

O polvo de Santa Luzia com batata-doce de Aljezur, servido também com curgetes e pimentos, deixou-nos rendidas (acho que detectei um exótico toque de leite de coco, mas não posso jurar). Para prato principal, houve quem optasse pelo bife de atum, mas a escolha da Margarida revelou-se perfeita: peito de frango recheado com morcela, acompanhado com açorda de amêijoas. Divinal. A sobremesa, a meu ver, foi a melhor que comemos nesta viagem, perfeita para o calor que se fazia sentir, um casamento feliz de produtos típicos da região: coulant de alfarroba com gelado de poejo.

(polvo e salada de ovas: fotos da Margarida do Figo Lampo)
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No sábado à noite rumámos à Praia Verde para conhecer o restaurante panorâmico Infante, onde, além de comermos principescamente, assistimos a uma verdadeira lição de saber receber algarvio, ministrada pelo Sr. João Coelho. Aqui os produtos regionais são tratados com grande respeito.

Para começar, salada de atum fresco, de uma maciez surpreendente, salada de ovas, deliciosa, e polvo al guilo, tenríssimo. O início da refeição era prometedor e as expectativas não saíram goradas neste desfile de boa comida. Seguiu-se o melhor arroz de lingueirão de que tenho memória, estava no grau perfeito de cozedura, malandrinho, temperado na justa medida para que reinasse o sabor a mar do lingueirão. Quando pensávamos que já tinha acabado, o Sr. João Coelho surpreendeu-nos com uma caldeirada com aroma a poejo, em que se destacava a frescura e a variedade de peixes e mariscos. Nem sei como é que tivemos espaço para debicar o “pijama” de sobremesas que encerrou este lauto banquete!


(caldeirada: foto da Laranjinha do Cinco Quartos de Laranja)

O almoço dominical de despedida, foi em S. Brás de Alportel, no alpendre do restaurante Fonte da Pedra, onde, acompanhadas pela simpática Cláudia Guerreiro, saboreamos uma excelente refeição internacional... O que prova que no Algarve há lugar para outras gastronomias, além da tradicional. De entrada, gambas fritas com um molho absolutamente fantástico, um convite para molhar o extraordinário pão algarvio; para pratos principais, houve bacalhau assado e tornedó com queijo de cabra e batatas gratinadas. Muito bom!


29/04/10

Visita ao mercado de Olhão e uma sopa de favas

(As fotos dos vegetais e do peixe-porco são da Helena)

Da viagem ao Sotavento Algarvio, trouxe uma mão-cheia de boas recordações, novas amizades, muitas ofertas... E um saco de favas. Comprei-as, já sem vagem, no mercado de Olhão. Aí deliciei-me com o aspecto apetecível das frutas e produtos hortícolas; admirei os frutos secos da região - espantei-me com um saco de castanhas piladas tão pequeninas como nunca tinha visto -; congratulei-me com a frescura do peixe; surpreendi-me com produtos até então desconhecidos para mim (ovas de polvo secas, muxama e litão seco); e reconheci alguns hábitos gastronómicos similares aos dos açorianos, que são afinal a minha principal referência. Ali, tal como nos Açores, reinavam o polvo, o atum e um peixe muito apreciado no arquipélago que pela primeira vez vi num mercado continental: o peixe-porco. A Margarida já me tinha dito que no Algarve também se consumia este peixe, nomeadamente na massada e na caldeirada. No Faial, aprendi com a minha avó paterna a prepará-lo em filetes, temperados com alho, massa de malagueta e vinho branco.

Mas vamos lá à receita: uma singela sopa de favas. Esta é das minhas leguminosas favoritas, gosto de sentir toda a sua intensidade e adoro casá-las com coentros.


Ingredientes para 4 pessoas:


300 g de favas (pesadas sem vagem e sem casca)
20 g de bacon
1 batata média
1 cebola picada
2 dentes de alho
Azeite q.b.
Coentros a gosto
Água q.b.


Pôr o azeite e o bacon na panela. Quando o bacon largar um pouco de gordura e ficar dourado, juntar a cebola e o alho. Deixar tomar cor. Adicionar as favas e a batata, deixando estufar uns minutos. Verter a água quente até ultrapassar as favas cerca de 2 dedos. Temperar com sal e pimenta. Cozer. Apagar o lume. Verificar os temperos e juntar os coentros picados. Tapar a panela. Deixar arrefecer um pouco e triturar. Caso seja necessário, juntar mais água à sopa e reaquecê-la. Servir.

27/04/10

Estórias do Sotavento Algarvio



Na passada quinta-feira, um bando de blogueiras entusiasmadas – eu, a Ameixa, a Carlota, a Gasparzinha, a Helena e a Mónica - partiu rumo ao Sotavento Algarvio, numa agitada viagem de comboio que deve ter ficado na história da CP pelo elevado grau de ruído. Chegadas a Faro, as barulhentas moçoilas foram recebidas pelas simpáticas Margarida e Ana Santos, da Associação Sotavento Algarvio, que as transportaram num espectacular bólide de 9 lugares até à Quinta do Marco, onde tiveram o prazer de pernoitar durante 3 noites. Na sexta-feira à noite, a Laranjinha trouxe ainda mais animação à ruidosa caravana. Aqui deixo uma parte dessa estória, a partir de agora num tom mais sério e narrada na primeira pessoa.



Foram quatro dias preenchidos de saberes e sabores, emoções, risos, aventuras e muita cumplicidade. Descobri um Algarve diferente, longe dos clichés da maioria dos panfletos turísticos. Um Algarve com as belas paisagens litorais, mas também com mágicas paisagens serranas, desconhecidas da maior parte dos turistas. Um Algarve de gente conhecedora dos costumes e das tradições da terra, pessoas empenhadas em preservar e em transmitir o que de melhor se faz no nosso país. São eles:

O amável Ricardo Badalo, que nos proporcionou um divertido passeio pela ria Formosa, repleto de informação sobre a fauna e a faina piscatória.

O Samuel, que nos elucidou a respeito da história do Arraial Ferreira Neto e dos usos e costumes ligados à pesca de atum.

O director do Vila Galé Albacora, Bruno Martins, que fez as honras da casa num magnífico almoço no âmbito do Festival de Gastronomia do Mar em Tavira.

O Grão Mestre José Manuel Alves, a Confreira Felícia Sampaio e o Confrade João Botelho (Confraria dos Gastrónomos do Algarve), ilustres depositários da excepcional tradição gastronómica da região.

O Coronel Rosa Pinto, nosso professor e cicerone num percurso pedestre destinado a descobrir as ervas aromáticas e a flora características do barrocal (tipo de solo situado entre a serra e o litoral).


A empreendedora Otília Cardeira, que nos ofereceu um reconfortante lanche caseiro, acompanhado pelos magníficos chás que produz na aldeia do Cachopo.

O António e o Eric (Riosul), que nos conduziram num safari pela serra do Caldeirão, mostrando-nos as belas paisagens, sempre acompanhadas de explicações entusiásticas sobre os usos locais.


A bem-humorada Maria da Cruz, que mantém vivas as tradições da doçaria algarvia, partilhando connosco os seus conhecimentos sobre os bolinhos de maçapão.

O Detlev von Rosen que nos deu uma verdadeira lição sobre oliveiras, azeitonas e produção artesanal de azeites, tendo sido nosso mestre numa elucidativa prova dos azeites biológicos do viveiro Monterosa.


Os chefs que nos prepararam lautos banquetes – sim foi um fim-de-semana de arromba também ao nível gastronómico – e nos deram a possibilidade de degustar pratos tradicionais, assim como saborear interpretações mais modernas da gastronomia algarvia. Noutro post darei o devido destaque à comidinha.



E, claro está, a Margarida e a Ana Santos, da Associação Sotavento Algarvio, uma organização sem fins lucrativos que amavelmente nos convidou para viver esta inesquecível experiência.

A todos deixo o meu sentido agradecimento pela hospitabilidade, gentileza e pela lição de vida.

Tenho pena de que as imagens não estejam à altura desta história, pois a minha máquina e as minhas competências fotográficas não são das melhores.